sexta-feira, 2 de março de 2012

O que significa ‘não fazer parte do mundo’?

NO QUARTO século EC, milhares de professos cristãos deixaram para trás posses, parentes e seu modo de vida para viver isolados nos desertos do Egito. Tornaram-se conhecidos como anacoretas (do grego a‧na‧kho‧ré‧o, que significa “eu me retiro”). Segundo certo historiador, eles viviam isolados de seus contemporâneos. Os anacoretas achavam que, por se retirarem da sociedade humana, estavam obedecendo ao requisito cristão de ‘não fazer parte do mundo’. — João 15:19.
A Bíblia realmente exorta os cristãos a se ‘manterem sem mancha do mundo’. (Tiago 1:27) As Escrituras dão um aviso claro: “Adúlteras, não sabeis que a amizade com o mundo é inimizade com Deus? Portanto, todo aquele que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus.” (Tiago 4:4) Mas, será que isso quer dizer que os cristãos devam ser anacoretas, retirando-se de outros em sentido literal? Devem manter-se à parte dos que não compartilham suas crenças religiosas?
Os cristãos não são anti-sociais
O conceito de não fazer parte do mundo baseia-se em vários relatos bíblicos que salientam a necessidade de os cristãos se separarem das massas da sociedade humana alienada de Deus. (Note 2 Coríntios 6:14-17; Efésios 4:18; 2 Pedro 2:20.) Assim, os cristãos genuínos têm o bom senso de rejeitar atitudes, linguagem e conduta que conflitam com as normas justas de Jeová, como correr atrás de riquezas, destaque e prazeres, tão comum no mundo. (1 João 2:15-17) Eles também se mantêm separados do mundo por permanecerem neutros em questões relacionadas com guerra e política.
Jesus Cristo disse que seus discípulos ‘não fariam parte do mundo’. Mas ele também orou a Deus: “Solicito-te, não que os tires do mundo, mas que vigies sobre eles, por causa do iníquo.” (João 17:14-16) É claro que Jesus não queria que seus discípulos se tornassem anti-sociais, evitando todo o contato com os que não fossem cristãos. Na realidade, isolar-se impediria o cristão de cumprir sua missão de pregar e de ensinar “publicamente e de casa em casa”. — Atos 20:20; Mateus 5:16; 1 Coríntios 5:9, 10.
O conselho de permanecer sem mancha do mundo não dá aos cristãos nenhuma base para se considerarem superiores a outros. Os que temem a Jeová repudiam a ‘exaltação de si próprios’. (Provérbios 8:13) Gálatas 6:3 diz que, “se alguém acha que ele é alguma coisa, quando não é nada, está enganando a sua própria mente”. Os que se acham superiores enganam a si mesmos porque “todos pecaram e não atingem a glória de Deus”. — Romanos 3:23.
“Não ultrajem a ninguém”
Nos dias de Jesus havia os que desprezavam a todos que não pertencessem a seus grupos religiosos exclusivos. Entre esses estavam os fariseus. Eles eram bem versados na Lei mosaica e nas minúcias da tradição judaica. (Mateus 15:1, 2; 23:2) Orgulhavam-se de seguir meticulosamente muitos rituais religiosos. Os fariseus se comportavam como se fossem superiores a outros só por causa de suas realizações intelectuais e posição religiosa. Expressaram sua atitude santimoniosa e de desdém por outros quando disseram: “Esta multidão, que não sabe a Lei, são pessoas amaldiçoadas.” — João 7:49.
Os fariseus até mesmo tinham uma denominação depreciativa para os que não eram fariseus. A expressão hebraica ʽam ha‧ʼá‧rets era no começo usada no bom sentido, para designar os membros da sociedade. Mas com o tempo os líderes religiosos arrogantes de Judá mudaram o sentido da expressão, dando a ela uma conotação de desprezo. Outros grupos, incluindo professos cristãos, têm usado termos como “pagão” ou “gentio” de forma depreciativa para designar pessoas de diferente religião.
Como os cristãos do primeiro século encaravam os que não abraçaram o cristianismo? Os discípulos de Jesus foram admoestados a tratar os descrentes “com brandura” e “profundo respeito”. (2 Timóteo 2:25; 1 Pedro 3:15) O apóstolo Paulo deu um bom exemplo neste respeito. Ele era acessível, não arrogante. Era humilde e animador, não ficava se enaltecendo. (1 Coríntios 9:22, 23) Na sua carta inspirada a Tito, Paulo dá a admoestação de ‘não ultrajar a ninguém, de não ser beligerante, de ser razoável e de exibir toda a brandura para com todos os homens’. — Tito 3:2.
Na Bíblia, o termo “descrente” é às vezes usado para designar quem não é cristão. Contudo, não existe evidência de que a palavra “descrente” fosse usada como uma designação oficial ou como epíteto. Evidentemente não era usada para depreciar ou menosprezar os que não fossem cristãos, visto que isso seria contrário aos princípios bíblicos. (Provérbios 24:9) As Testemunhas de Jeová hoje não tratam os descrentes de forma grosseira ou arrogante. Consideram ser falta de educação chamar parentes ou vizinhos que não são de sua crença de termos depreciativos. Seguem o conselho da Bíblia, que diz: ‘O escravo do Senhor precisa ser meigo para com todos.’ — 2 Timóteo 2:24.
“Façamos o que é bom para com todos”
É de suma importância que enxerguemos os perigos de se ter intimidade com o mundo, especialmente com os que mostram flagrante falta de respeito para com as normas divinas. (Note 1 Coríntios 15:33.) No entanto, quando a Bíblia aconselha a ‘fazer o bem a todos’, a palavra “todos” inclui os que não compartilham as crenças cristãs. (Gálatas 6:10) Evidentemente, em determinadas circunstâncias, os cristãos do primeiro século tomavam refeição com descrentes. (1 Coríntios 10:27) Portanto, os cristãos hoje tratam os descrentes de forma equilibrada, encarando-os como seus semelhantes. — Mateus 22:39.
Seria errado presumir que a pessoa é indecente ou imoral só porque ela não está familiarizada com os princípios bíblicos. As circunstâncias variam, e as pessoas também. Assim, cada cristão precisa decidir até que ponto restringirá o contato com descrentes. Contudo, seria desnecessário e contrário às Escrituras o cristão isolar-se em sentido físico como faziam os anacoretas, ou ter sentimentos de superioridade como os fariseus.

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